• tekabvc

A habilidade em descortinar o mundo


Lembro como se fosse hoje o dia que a minha mãe chegou em casa com um conjunto de panelinhas e um pequeno fogão de barro. Era uma combinação de tons marrons e alaranjados que não parecia ser de barro, a não ser pela aparente fragilidade.

Não contei tempo! Estiquei uma toalha de banho antiga no chão de areia, à sombra da minha casa, e montei a “minha casinha”. Eu deveria ter uns 7 ou 8 anos nessa época. Era uma menina bem miúda, com perninhas longas e o cabelinho sempre “Maria Chiquinha”.


Para a minha proporção, aquela toalha parecia grande o suficiente para ser dividida em duas partes: um lado, a cozinha e, o outro, o quarto. Eram tempos em que qualquer espaço servia para brincar e montar uma “casinha”.


Lembro que as minhas bonecas ficavam deitadas uma ao lado

da outra, dormindo, enquanto eu colocava areia molhada e folhinhas nas panelinhas, fantasiando o belo almoço que estava sendo preparado.

As horas passavam devagar! Ora eu cozinhava, ora alimentava as bonecas, ora as colocava para dormir…Uma verdadeira rotina doméstica.


Aos meus olhos aquelas panelinhas e aquele fogão eram tão perfeitos e delicados. Pareciam únicos e feitos só pra mim.


Lembro de ter perguntado para minha mãe onde ela os tinha comprado, já que na loja de brinquedos, que eu conhecia, nunca os havia visto. Minha mãe, paciente como sempre, me disse que pessoas, chamadas artesãos, faziam com as próprias mãos e que era um procedimento cuidadoso,

podendo levar dias.


Meu fascínio por brinquedos de barro só cresceu. Mais panelinhas, pratinhos e vasos chegaram e deram mais graça e alegria para as minhas brincadeiras. Suas cores e detalhes davam a sensação de terem sido feitos sob encomenda. Embora eu soubesse que todos eram comprados no centro da cidade.


Já adolescente, compreendi que a perfeição daqueles objetos vinham de mãos habilidosas que trabalhavam o barro com cuidado e maestria, cujo conhecimento era transmitido por gerações. Não tenho dúvidas que a partir dessa doce experiência o meu amor pelo artesanato nasceu e até hoje faz parte da minha vida.

São os mais variados estilos de objetos artesanais que ornam a minha casa. Lembro onde comprei ou ganhei cada um deles. Atribuo “sentido” para estarem em determinado local da casa. Também ouso trocá-los de lugar sempre que o “sentido de estarem ali” mudar. Eles são objetos dinâmicos, quase com vida própria, e que ainda hoje brincam comigo de casinha.


Quando conheci o propósito da JoyJoyLand e a parceira feita com as costureiras do projeto Cidades Invisíveis, voltei àquela lembrança da minha infância.


Descortinar o mundo às crianças por meio de brinquedos educativos feitos pelas mãos de habilidosas costureiras, integrantes de um projeto social que busca as incluir cada vez mais no mundo, me fez pensar nos laços formados entre pessoas e gerações que provém de um trabalho artesanal. Sim. Ouso dizer que as costureiras são artesãs, assim como as demais pessoas envolvidas nas etapas de criação dos brinquedos da JoyJoyLand.

Juntos, eles formam uma corrente de artesãos sensíveis ao significado do ato de brincar no período mais criativo e revelador que é a infância.


Descortinar, desbravar, descobrir o mundo são ações constantes do universo infantil. E somos tão talentosos nessa fase que usamos todos os nossos sentidos. Olhamos, cheiramos, apalpamos, degustamos o mundo atribuindo significado a cada descoberta. Um “sentir o mundo” que a JoyJoyLand deseja proporcionar às crianças e, assim como os artesãos das minhas panelinhas, trazer mais significado às suas vidas.


Walkíria Machado Rodrigues Maciel - uma apaixonada por artesanato e que até hoje brinca de casinha

22 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo